segunda-feira, 23 de maio de 2011

Tarô da Heron

O Louco no Tarot de Nicolas Conver (1760)
Depois de muito namoro e pesquisa comprei o Tarô foto-reproduzido de Nicolas Conver elaborado pela Herón (1760). Exatamente como está na Bibliotèque Nationale de France (BNF)Fiz a compra por um site britânico, que pelos meus cálculos, de conversão da Libra esterlina e pela dedução do imposto VAT (só é cobrado aos europeus), valeu bastante a pena. 

O Louco no Tarot de Marseille restaurado por Jodorowsky e Camoin


Não tenho certeza, mas pelo que vi é a base das gravuras utilizadas por Jodorowsky e Camoin para a reconstrução de seu Tarô. 



Esses baralhos foto-reproduzidos possuem um charme bacana, pois suas cores possuem um tom naturalmente desgastado. Parecendo que já foram utilizados inúmeras vezes. A sorte, o amor, a fortuna de milhares já passaram por suas desgastadas lâminas....

domingo, 22 de maio de 2011

Como Tirar a Sorte pelas Cartas - Madame Zenaira

Aproveitando um dia agradável de outono, saímos a passear em São Leopoldo e na garupa levei uma sacola enorme de gibis para trocar num sebo de São Leopoldo. 

Após realizado o acerto com a dona. Vou para a escolha. Entre as várias possibilidades me chama a atenção que sempre pinta um exemplar, relativamente barato, de Tarô dos Anjos, da Monica Buonfiglio. Mas algo me diz que não é boa coisa. Em qualquer livraria você encontrará Tarô Adivinhatório no mínimo duas cópias, também saio de costas... 

Me chamou atenção um livro de autoria da Madame Zenaira: Como Tirar a Sorte pelas Cartas (da Ediouro). 

Seria um livro completamente descartável, por várias razões: autora, conteúdo do livro (baralho comum), capa horrível... Porém verifiquei que o forte de seu comentário referia-se ao baralho de cartas comum, mas de 32 cartas... E 32 cartas são os baralhos Le Jeu du Destin AntiqueBiedermeier Antique. Estes pequenos oráculos são tinhosos para quem, como eu, não entendem muito de adivinhação. Pois os livretos que acompanham cada baralho são vagos quanto ao significado das cartas, no livreto do Le Jeu du Destin Antique chega ao absurdo de não dizer nada sobre as alegorias presentes nas imagens das cartas. 

Pesquisei alguns sites que vendem alguns manuais de interpretação destes dois baralhos, como no TarotPDF. Mas o preço me desencorajou... 

Aí que entra Madame Zenaira (porque esse nome? qual o problema com o nome da pessoa?) e seu desprezado livro como um substituto barato para a interpretação destas 32 cartas. Falarei dessa experiência no futuro.

Voltando ao livro. Como falei o a maior parte do livro debruça-se sobre os significados das 32 cartas e diversos métodos de leitura e interpretação. Há nada menos que oito esquemas para leitura destas 32 cartas do baralho (às, rei, rainha, valete, dez, nove, oito e sete de cada naipe). Em nenhum momento Zenaira fala em Cabala, em psicologia junguiana, alquimia, ou hermetismo. Nem mesmo a famigerada relação dos quatro elementos com os quatro naipes é mencionada. Acredito que deva ser a interpretação de muitas cartomantes, algo básico, sem firulas...

Há pérolas como jogos de amor entre dois ou mais participantes (mènage?); jogo do Cupido e do Himineu; jogo do Matrimônio.

Por fim, há diversos métodos adivinhatórios (dominó, unhas, bolo de cristal, fisionomia, clara de ovo, Tarô, dados...) isso em menos de quarenta páginas. Terminando com algumas simpatias. Até as adolescentes vão gostar desse fantástico livro, hehehe!

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Waite & Viéville

O Sol no Tarô Rider-Waite-Smith
tarot Viéville, arcane XIX
Navegando pela internet verifiquei que a carta O Sol de A. E. Waite possui um paralelo com a gravura feita, supostamente, por Jacques Viéville para seu Tarô tipo de Marselha. Pesquisando mais pude perceber que os estudiosos deste Tarô consideram-no meio misterioso, por diversas particularidades que só estão presentes nesse baralho.

Porque será que Waite bebeu nesse baralho?

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Documentário sobre o Tarô: Tarology!


Enquanto estava fazendo o dever de casa pesquisando sobre a forma de interpretação de Enrique Enriquez (seguindo a sugestão dada por Rasa) e tentando fugir do resultado negativo encontrado em http://enriqueenriquez.net/index.html (com propagandas de domínios de internet). Achei este interessante projeto: http://www.indiegogo.com/Enrique-Enriquez-Project.



Me empolguei mesmo! Estão em fase de arrecadação, através de Financiamento Coletivo (crowdfunding). Dê uma conferida nos trailers e se calhar, contribua! Se der certo, vou ganhar uma carta de Tarô autografada.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Leitura de Tarô em Montevidéu

Sabendo que iria passar o feriadão em Montevidéu, fiz uma pesquisa rápida na internet sobre Tarô no Uruguai e sem querer me deparei com o blog de Rasa. Após uma breve troca de e-mails marcamos para que ao chegar na cidade, telefonasse.

A moça foi muita simpática, fazendo um grande esforço para me entender e me proporcionando uma leitura no mínimo inusitada. Enquanto ela interpretava as cartas em inglês (ela é canadense) eu respondia em portunhol...

Detalhes sobre a leitura não preciso dizer só que foi sobre trabalho e que ela me passou bastante segurança.

Feita a leitura, me perguntou se queria saber mais alguma coisa (senão teria de cobrar um extra) se não, poderíamos conversar. Optei pela conversa. O que foi muito interessante!. Ela me mostrou diversos maços de Tarô que ela coleciona, uns bem antigos e que desconhecia.

Um dos baralhos foi produzido por um feitor de cartas italiano: Osvaldo Menegazzi, que cria e reproduz baralhos de forma artesanal e limitada. São lindos e verdadeiras preciosidades suas reproduções fiéis de antigos maços. Quem deseja se aventurar (nas linhas, cores e preços) pode conferir o catálogo aqui.

E quando estávamos comentando sobre formas de leitura e interpretação, me indicou o nome de Enrique Enriquez. Que, de acordo com Rasa, interpreta as cartas de acordo com o significado poético que o desenho do Tarô de Marselha revela. Tentei fazer uma pesquisa rápida sobre o seu nome, mas não apareceu nada...

quinta-feira, 3 de março de 2011

Riqueza original do Tarô?


Desde que li esse trecho de um texto do Constantino K. Riemma, no Clube do Tarô, tenho repensado o uso que tenho feito do baralho de Waite, veja:


O Dez de Espadas do baralho Rider-Waite ajuda a exemplificar essa freqüente contradição entre o que é propalado como fundamento e o resultado concreto.

Nessa carta fica clara a enorme distância simbólica entre o aniquilamento de um homem, abatido pelas costas com uma dezena de espadas, e os múltiplos atributos e significados do elemento ar (naipe de espadas) e do número dez (o retorno do conjunto à unidade). Diante de um fato como este, faz sentido a crítica de que, com essa figuração, Waite "não só liquidou com o personagem, mas também enterrou a riqueza de significados esotéricos do Dez de Espadas".



Soa, para mim, que o baralho de Rider-Waite-Smith diminuiu a riqueza original... O que fazer? Desistir de tudo? E se desistir, onde está a riqueza original?

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Guillaume Postel, os quatro elementos e o Tarô - um erro.


Quando chegou à minha mão o livro Tarô, Ocultismo & Modernidade do Nei Naiff, debulhei a leitura para ver se encontrava o que estava me intrigando desde esse post. Ou seja, à procura de maiores detalhes sobre a relação dos quatro elementos com os quatro naipes do Tarô que Postel foi, supostamente, o primeiro a definir.  E mais importante ainda: seria uma relação estudada trezentos anos antes de todos os outros ocultistas que - em grande parte e na minha opinião - mais confundiram do que explicaram o Tarô! Infelizmente Naiff não dá maiores detalhes de como esta proposta foi realizada por Postel, tampouco diz em qual edição de Clavis Absconditorum ele consultou. Sua tese é que somente Eliphas Levi irá reabilitar e dar o devido crédito à Postel, isso quase no fim do século XIX.

Porém em todas as fontes que pesquisei, não encontrei nada que diga que Postel sequer conhecia o Tarô. Na minha opinião é um pequeno erro de apreciação que Naiff cometeu e não tira a credibilidade muito menos a relevância de seu trabalho, que é justamente a de desmitificar o universo do Tarô e de esclarecer sua história.

No "Prefácio Biográfico" assinado por Arthur Edward Waite em 1896 para o livro de Lévi: Dogma e Ritual de Alta Magia (que não consta no livro da edição brasileira da Editora Pensamento). O inglês comenta ironicamente que Lévi gostava de percorrer as obras e não de aprofundar-se nelas e continua:
"Um dos trabalhos mais citados por Lévi e com maior reverência é o trabalho de Postel, porém Lévi nunca se deu ao trabalho de verificar que a chave que lhe era tão cara era na verdade um adendo de uma edição posterior". - (Tradução minha de uma edição em inglês).
O editor em questão foi Abraham von Frankenberg, que adicionou esta chave (abaixo) em 1646, como uma interpretação pessoal do que Postel escreveu em 1546. Porém, que fique claro, nem Postel nem Frankenberg deteram-se sobre o Tarô. Essa suposta ligação é feita por uma interpretação errônea de Eliphas Lévi. 

Chave de Frankenberg, que Lévi considerou como sendo de Postel. Que posteriormente foi reinterpretada pelos ocultistas do século XIX como Papus, Zain e Waite.
Assim Levi interpreta a tal chave:
"Os verdadeiros iniciados, dizemos nós, que conservam o segredo do tarô entre os seus maiores mistérios, se guardaram de protestar contra os erros de Etteilla, e não o deixaram revelar, mas velar de novo o arcano das verdadeiras clavículas de Salomão. Por isso, não é sem profunda admiração que achamos intacta e ignorada ainda esta chave de todos os dogmas e filosofias do mundo antigo. Digo uma chave, e é realmente uma, tendo o círculo das quatro décadas para anel, a para haste ou corpo a escada dos 22 caracteres, depois para dentes os três graus do ternário, como o entendeu e figurou Guilherme Postel, na sua Chave das Coisas Ocultas desde o Começo do Mundo, chave da qual indica o nome oculto e é conhecida unicamente pelos iniciados [à esquerda]
palavra que se pode ler Rota, e que significa a roda de Ezequiel, ou Tarô, e então é sinônimo do Azoth dos filósofos herméticos. É uma palavra que exprime cabalisticamente o absoluto dogmático e natural; é formado dos caracteres do monograma de Cristo, de acordo com os gregos e hebreu".


De acordo com Michael Hurst, aqui: "Eliphas Levi elaborou uma ficção no século XIX, sobre uma ilustração do século XVII, para um livro [de Postel] do século XVI." E muitos ocultistas querem justificar tudo isso no século XXI. 

Nesta página aqui, há um artigo que comenta sobre essa confusão e as possíveis inspirações que Frankenberg teve para a dita chave.

Quanto as considerações de Naiff, acredito que ele tenha se baseado em Papus. Este em O Tarô dos Boêmios, ao desenvolver as relações entre as figuras dos Arcanos Menores, seus naipes e ao Tetragrama sagrado, relembra Postel e Levi:
"Todos os autores que estudaram o aspecto filosófico do Tarô reconhecem unanimemente a correspondência entre o tetragrama e os quatro naipes. Guilherme Postel, e sobre tudo Eliphas Levi, desenvolveram estes estudos com proveito mostrando-nos como as quatro letras do tetragrama são aplicadas ao simbolismo de todos os cultos". - (Tradução minha de uma edição em espanhol).
Pelo teor das conclusões de Papus, me parece que Naiff  tenha retirado destas páginas o que ele considerou ser de Postel.

Quem quiser e tiver culhão sagacidade para isso, pode verificar o original Clavis Absconditorum a Constitutione Mundi (Chave para coisas ocultas desde a fundação do mundo), em latim, na Biblioteca Nacional da França. Se não funcionar tem este outro link.

O que me intriga é que Arthur Edward Waite mesmo sabendo desta confusão perpetuou a falha quando comissionou com Pamela Smith a realização de seu Tarô. A dupla referendou tal ligação com o Arcano Maior de número dez, A Roda da Fortuna. Por que Waite? Porquê?

De acordo com Papus esta é: A Chave 
Absoluta para a Ciência Oculta.
Quase toda a viagem de Lévi está aqui: as
criaturas de Ezequiel, ROTA,
Tetragrama e os símbolos
alquímicos.





















Isso tudo toma dimensões insanas surrealistas quando se vê gente publicando essas chaves (Frankenberg, Zain, Papus e Waite, misturando com suástica, tibetanos e templários) e interpretando-as para dizer que encontrou um código para o dia do juízo final. Não vou dar o endereço do rapaz aqui, porque ele não merece, merece o hospício ou algum medicamento... Mas é interessante verificar como pega, essas conversas de conspirações, segredos, "estão ocultando isso de você" etc.

Concluindo...

Através das fontes pesquisadas é possível concluir que Postel não é o primeiro ocultista a estudar o Tarô e por isto nenhum outro ocultista trouxe à tona sua obra relativa às cartas, a não ser através de Eliphas Levi que apressadamente construiu essa relação. Será Papus em O Tarô dos Boêmios que irá fazer a relação direta entre as letras do nome de Deus, os quatro elementos e os naipes do Tarô.

Por enquanto, não há evidências de que o Tarô tenha sido tratado por algum hermetista, cabalista, astrólogo ou filósofo anterior aos apontamentos de Court de Gebelin e do conde de Mellet.