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quinta-feira, 28 de junho de 2012

Tentando lançar Tarology no Brasil

Essa semana fiz alguns contatos para realizar a tradução e a legendagem do documentário Tarology. Mas tudo é um preço proibitivo para quem não é do ramo. Entrei em contato com uma distribuidora de filmes, mas não se interessaram pelo projeto...

Uma pena, pois este filme além de atrair um grande número de espectadores, teria um papel relevante em desmistificar tanto o Tarô como o leitor das cartas. De fora, as pessoas vêem o intérprete do tarô sob um destes três prismas:
Enriquez incorporando O Mundo.

  • alguém com pacto com satanás; 
  • um louco excêntrico repetidor de chavões; ou
  • como um charlatão qualquer.

Por enquanto esse privilégio desmistificador fica disponível somente para o pessoal dos EUA.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

"Chaves Gestuais para a Interpretação do Tarô" por Enrique Enriquez

As "Chaves Gestuais para a Interpretação do Tarô", escrito por Enrique Enriquez, serve como introdução ao livreto que acompanha o baralho restaurado de Jean Dodal


É um escrito condensado, que demonstra a forma lírica como Enriquez encara o Tarô, sem fórmulas complexas e sem significados pré-concebidos. 



Terminei de traduzí-lo semana passada e este fará parte do material que pretendo disponibilizar junto com os Tarôs de Jean Dodal e Jean Noblet. 



Tomei a liberdade de mostrar ao próprio Enriquez o resultado. E para minha satisfação e alegria o trabalho foi aprovado!


Deixo com vocês as chaves de Enriquez:


A presença faz o sentido.
À esquerda, lembranças,
à direita, o que virá.
Só aqueles que te olham nos olhos é que vêem o presente.
Que a cabeça mostre sua atenção.
Faça o que a imagem faz, não o que ela diz.
Senta-te passivamente, pare receptivamente, caminhe ativamente
Incorpora teu destino.
Duele com a espada,
construa com o paus,
ofereça uma taça,
plante uma moeda.
Que as mãos mostrem sua intenção.
Esqueça o que é o vermelho, e veja o que realmente é o vermelho,
Detenha-te em um número como se fosse uma montanha, e desnude-se até ficar só em tua armadura;
Porque o que transforma chumbo em ouro também transforma sal em açúcar,
O que se avança um passo, atrasa-se em outro
E o que vistes te desnudarás.
Reconheça uma imagem através de suas amigas
As verdades mais profundas ocultam-se no óbvio.


Maiores explicações sobre estas chaves estão no folheto de Jean Dodal...

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

O Tarô de Waite e o Tarô de Sola Busca

Por acaso, descobri um baralho de Tarô anterior ao de Rider-Waite-Smith que já tinha seus naipes numerados ilustrados. Tirando de Etteilla a pretensa originalidade das ilustrações dos Arcanos Menores. É mais um peculiar baralho (além do de Viéville) que Waite e Smith inspiram-se. Além de outras inspirações já tratadas aqui.

Seguem traduções de dois comentários que achei sobre o baralho e sobre sua suposta inspiração à Waite & Smith:

A Rainha de Copas nos baralhos de Sola Busca e de Waite-Smith
O baralho de Sola Busca é o único baralho completo do século 15. A data mais provável deve ser 1491. As cartas foram gravadas em cobre e depois pintadas à mão em cores. Os historiadores do Tarô, Giordano Berti e Sir Michael Dummett, sugerem que o baralho pode ter sido gravado em Ferrara e iluminado em Veneza. 

Em 1907, o proprietário das cartas, da família Sola Busca , tinha fotografias em preto e branco de razoável boa qualidade (para a época) do baralho completo. Um conjunto destas fotos foram apresentadas ao Museu Britânico (British Museum). Desde aquela época, a plataforma original nunca foi colocada em exposição novamente!

Logo após a recepção das imagens fotográficas em preto-e-branco do Tarô de Sola-Busca, eles foram colocados em exposição no Museu Britânico, em Londres. É provável que a experiência de ver esta exposição tenha servido de estímulo inicial para Arthur Edward Waite e Pamela Colman Smith para posteriormente criarem  seu próprio baralho de Tarô com todos as 78 cartas ilustradas, assim como todo o pacote de 78 cartas de Sola Busca é ilustrado.

Acredito que Pamela Smith teve muita inspiração das imagens renascentistas de Sola Busca. Ambos, Waite e Smith, como membros da Golden Dawn, estavam bastante familiarizados com a Alquimia Renascentista. Smith, em particular, estava familiarizada com roupas renascentistas e o simbolismo das cores, devido ao fato de que ela ter passado vários anos com uma trupe teatral na Inglaterra, tornando-se figurinista e cenógrafa. De fato, há semelhanças entre algumas das cartas numeradas de Sola-Busca e as figuras de Pamela. 


Como foi demonstrado por Giordano Berti e Sofia Di Vincenzo em um estudo publicado em 1995 (Alchemy em Sola-Busca Tarot, Torino - 1995 e Stamford - 1998) este é o primeiro Tarô verdadeiramente esotérico na história, porque suas imagens são claramente inspiradas pela tradição alquimista do Renascimento.

Em 2009, o Museu Pinacoteca di Brera, em Milão comprou o deck por 800 mil euros.

Já foram lançadas reproduções pela U.S. Games, LoScarabeo e uma edição limitada por Wolfgang Mayer. Todas fora de catálogo.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Em Busca do Baralho Perfeito IV... (uma comparação) - parte 2

Continuando o post de ontem, onde fiz comparações entre quatro baralhos diferentes tentando verificar qual seria o mais apropriado entre os Tarôs de Marselha. Já falei da decepção com o baralho de Jodorowsky/Camoin criada principalmente por causa de todas as promessas de redescoberta dos símbolos, do propósito e do significado "deste monumento da cultura ocidental"... que no fim se mostraram vazias.

Baralho de Sanchez/Rodes
Vejo, que em parte eles alcançaram o objetivo de restauração, principalmente em relação às cores, mas de resto... A dupla editou um novo baralho de Marselha, portanto não é uma restauração de um baralho antigo! E a outra dupla Sánchez/Ródes faz o mesmo, adicionando uma cor (horrível) de fundo nas cartas. Repito, infelizmente não há entre estes dois produtos um baralho restaurado, o que há são modificações visando a exclusividade para que se possa cobrar os devidos direitos autorais.

Quando alguém clama haver restaurado algo à sua condição original, o mínimo que se espera é uma evidência do que é considerado como original. No seu livro La Vía del Tarot Jodorowsky conta que o baralho original foi encontrado por eles no México, porém em nenhum momento este baralho foi exposto e pior ainda não é revelado nenhuma informação sobre quem , quando e onde este baralho foi feito. O máximo de informação que Jodorowsky dá sobre o baralho é que ele é de um traçado como o de Marselha, porém pintado à mão. E assim, foi usado como base para a reconstrução das cores originais.

Para os detalhes que não constam no baralho de Conver, Jodorowsky diz que “a versão de Nicolas Conver de 1760, possivelmente continha erros e omissões”. A premissa é a de que os impressores originais eram iniciados em uma tradição secreta (exatamente qual ele não diz) e quem não fosse um iniciado faria somente uma cópia, suprimindo detalhes importantes. Então o trabalho dele e de Camoin foi o de sobrepor diversos baralhos diferentes e assim verificar quais símbolos apareciam em uns e desapareciam em outros.

Diversos estudiosos do Tarô fizeram algo parecido com o que a dupla fez e verificaram que eles não só acharam supostos símbolos "perdidos" por impressores não-iniciados descuidados, assim como transformaram detalhes que originalmente eram dúbios em certezas absolutas. O “ovo” da Papisa, supostamente está no baralho de Suzanne Bernardin (1839) - ao lado - olhe você mesmo a carta e tire suas conclusões. As serpentes na carta Temperança, estão realmente lá? O tetragrama sagrado no esqueleto da morte?  De onde vieram? A porta da Maison Dieu está no baralho impresso por Jean Jerger (1800-1825) e no de Renault em (1820-1840) - ambos abaixo - que nem são baralhos tão antigos.

Relatos dos que participaram dos cursos ministrados por Philippe Camoin, informam que diversos detalhes nas cartas corroboram a lenda de Maria Madalena como portadora da semente de Jesus. Uma prova disso estaria no símbolo cristão do peixe no lago da carta Lua que dirige-se ao útero da personagem feminina (Madalena) da carta anterior, a Estrela.

Já o baralho da dupla de espanhóis Daniel Rodés e Encarna Sánchez o Tarot de Marsella supostamente possui “os antigos ícones do Tarô reconstruídos”. É praticamente um clone do baralho de Camoin/Jodorowsky. Porém, da mesma forma que a outra dupla, também adicionam detalhes que irão corroborar uma teoria/lenda: a Lenda dos Cátaros, de Maria Madalena etc. A história deste baralho inicia-se quando seus criadores separaram-se da casa impressora de Philipe Camoin criando sua própria escola a Escuela Internacional de Tarot de Marsella - Le Mat. No seu El Libro de Oro del Tarot de Marsella a primeira edição utiliza o baralho Jodorowsky/Camoin. Já a nova edição lançada por outra editora utiliza o baralho pretensamente denominado de "reconstruído".

Conclusão

Ambos os baralhos não são os Tarôs de Marselha reconstituídos. São Tarôs de Marselha pasteurizados modernos, idealizados por uma premissa de religiosidade nova era, onde você escolhe no que vai acreditar e a quem irá prestar culto, resumindo, um fast-food espiritual.

O problema todo é resumido na pretensão que estes autores têm em reclamar que seus baralhos sejam os verdadeiros Tarôs de Marselha, que sejam os Tarôs com suas características tradicionais restauradas... Pois não é verdade, podem ser ótimos baralhos, bonitos e realizados por pessoas competentes e inteligentes, mas que não revelam antigos segredos esquecidos ou perdidos.

Como não sabemos exatamente como originalmente foram criadas estas imagens, quem reconstrói elas no século XXI, está fazendo escolhas no século XXI. Ao se utilizar vários baralhos diferentes para se chegar a um baralho novo, não se está recuperando a intenção real de seus criadores, até por que não se sabe quem criou o Tarô de Marselha. Nestes dois casos analisados há uma intenção definida ditada por uma teoria ou lenda, forçando as imagens a terem um determinado aspecto. 

O novo homem sendo forjado no atanor através do ovo alquímico.
De costas está Jodorowsky, no papel do judeu/alquimista,
no filme Montanha Sagrada, de 1973.
Conhecendo um pouco da obra artística de Jodorowsky (principalmente o filme Montanha Sagrada) entende-se que desde muito tempo o autor é atraído à simbologia alquimista. Já sua abordagem terapêutica (a Psicomagia e a Psico-genealogia) dá a pista de como esse projeto começou, em algumas conferências Jodorowsky mencionou o valor terapêutico da trampa sagrada, ou seja, mesmo uma mentira pode ser valiosa quando pode curar alguém. E é público o estado de Philippe (dito Camoin) antes do lançamento deste baralho: estava recluso em sua casa e o único contato que mantinha com o mundo exterior era através da televisão. Se o objetivo público de lançar um Tarô de Marselha reconstituído não foi alcançado, ao menos o objetivo privado foi muito bem atingido.


Fontes Pesquisadas

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Em Busca do Baralho Perfeito IV... (uma comparação) - parte 1

Jodorowsky/Camoin
Na busca do baralho perfeito comecei uma comparação entre o Tarô publicado pela Heron (que já havia comentado  aqui)  com o baralho restaurado por Jodorowsky-Camoin... Ainda não disponho dos baralhos de Flornoy para realizar qualquer comparação ou estudo. Porém não esperava que isso fosse dar tanto pano para manga. E confesso que o resultado final foi de pura decepção, principalmente com o baralho de Jodorowsky/Camoin (ao lado) pelo qual nutria diversas expectativas. Claro que essas expectativas foram plantadas pelos mesmos e por todas as resenhas positivas que havia lido em português, pois não economizam tinta para dizerem que a dupla fez um trabalho de resgate da “pureza” e da “Verdade Tradicional” do Tarô de Marselha. Quanto mais eu pesquisava, mais verificava que é sim, um belíssimo Tarô de Marselha, mas que não tinha nada a ver com o que pregavam. Tentarei, em dois posts, ser o mais claro possível, condensando meus mais de dois meses de pesquisa.

Informações oficiais sobre o baralho de Jodorwsky/Camoin podem ser encontradas no Clube do Tarô e no próprio site reservado ao baralho da dupla em português.

Heron
O Tarô de Marselha da Heron (à direita) é uma foto-reprodução da cópia preservada na Biblioteca Nacional da França da impressão de 1760 de Nicolas Conver.

Encarnando o Diabo...
Na mesma semana em que comecei este trabalho recebi de um amigo um link para uma série de 22 vídeos: Las Fuerzas Vivas del Tarot. Onde Encarna Sánchez encarna cada um dos personagens dos Arcanos Maiores. Ela apresenta reproduções grandes das cartas do Tarô de Marselha com fundo dourado escuro. Na série de vídeos ela dialoga com as ilustrações, desenvolve situações que relembram o significado e a possível origem das cartas. 

De acordo com ela o baralho apresentado é o baralho marselhês por excelência, pois está com seus "antigos ícones reconstruídos". A mesma proposta de Camoin e Jodorowsky. E não tem como negar, as imagens dos dois baralhos são muito parecidas. Porém, alguns detalhes do baralho da dupla espanhola não está presente no baralho de Jodo/Camoin. No seu site oficial Le Mat - Escuela Internacional de Tarot de Marsella, há alguns comentários sobre suas vantagens, mas nada que explique como essa reconstituição foi realizada.
CBD Tarot de Marseille -
o Tarô de Conver
 restaurado por
Yoav Ben-Dov

Transformei os vídeos para DVD e assim consegui comparar os três baralhos ao mesmo tempo. Coloquei na parada também as imagens digitais da recente restauração realizada pelo israelense Yoav Ben-Dov, que foi aluno de Jodorowsky, o CBD Tarot de Marseille.

Apresento minhas observações:

Todos os quatro baralhos são bem semelhantes tanto no uso de cores, quanto ao posicionamento e gestos dos personagens. Só são iguais o Tarô da Heron e a restauração de Yoav Ben-Dov. O que me faz acreditar que o israelense usou exatamente estas cartas para realizar sua restauração, isso ficou evidente com a comparação entre as Torres de ambos. Há um esfumaçado que permaneceu na versão de Yoav. Ele também tem alguns vídeos no Youtube, onde diz que a modificação que fez foi no traçado dos rostos dos personagens. 

Questionado em um fórum gringo sobre Tarô ele respondeu que “esta não é uma replica do original de Conver, mesmo tentando ser o mais fiel possível ao original, adaptei as imagens para as novas técnicas de impressão e para as sensibilidades visuais da atualidade: cores mais vividas, linhas mais suaves e expressões humanas mais leves".

Uma conclusão já é possível: o baralho restaurado por Yoav Ben-Dov é uma reprodução fiel ao gravado por Nicolas Conver em 1760. Há adaptações, mas nada é adicionado ou subtraído das imagens.
A esfinge no baralho de
Rodés/Sanchez

Agora me intriga os detalhes que os baralhos de Jodorowsky e de Sanchéz possuem, às vezes os detalhes que ora estão presentes em ambos ora estão em somente um. Os dados do Mago, a porta da Maison-Dieu, o ovo do Imperador e da Papisa não estão nas tábuas de Conver e quem for atrás irá verificar que ou vieram de outros baralhos nem tá antigos e que outros detalhes foram adicionados. No vestido da Papisa de Sánchez, há um detalhe que não há em nenhum outro, que seria uma Esfinge (que meda!). Porém em nenhum momento, ninguém diz de onde vieram estes detalhes.

E foi aí que complicou tudo, se estes símbolos não estão em Conver, o que estão fazendo nestes baralhos? Como as explicações nos sites de ambos são insuficientes parti para a pesquisa.

Para não alongar demais, esse post continua amanhã, com tudo o que descobri sobre os baralhos de Jodorowsky/Camoin e de Rodés/Sanchéz.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Em Busca do Baralho Perfeito III... (Estudos Iconográficos)

Como  o estudo iconográfico que tenho empreendido tem me deixado cada vez mais desgostoso com o baralho de Rider-Waite, passei a procurar um novo baralho, que guarde a riqueza original, seguindo duas premissas:
  • que não siga modismos e nem seja voltado à iniciação de seitas ou grupos esotéricos; e

  • que tenha ligação com suas origens e, consequentemente, com as motivações culturais de quem moldou essas imagens (sobre isso já falei em duas oportunidades aqui e aqui).


As evidências que tenho colhido é a de que: quem gera novos baralhos está querendo impor uma maneira própria de encarar a vida, adicionando símbolos condizentes à sua doutrina (no caso de Waite, Wirth, Crowley) - ou ao seu bolso (no caso dos baralhos modernos).

Desta forma, o caminho mais coerente seria o de procurar os baralhos mais antigos e quem sabe o baralho original, mas isso não é tão fácil. Mesmo com todas as descobertas dos últimos 20 anos, não se sabe se houve um baralho original. Somado à isto, dos baralhos mais antigos poucos restaram completos. Estes eram baralhos realizados por encomendas de casas reais e para exclusivo uso da nobreza.



Em um primeiro momento, estas opções ficam excluídas, restando os baralhos do Tarô de Marselha. E aí há um grande número de opções. As remodelações e edições modernas como a de Fournier (à esquerda) e a da Aliados da Arte (à direita) ficam de fora. De acordo com este artigo da Bete Torii sobre o Tarô de Marselha, no Clube do Tarô, também serão excluídos:




A Papisa
por Kris Hadar

  • o baralho da Grimaud, editado por Paul Marteau, que não reproduz as cores utilizadas nas primeiras edições do século XVIII, por uma deficiência tecnológica da época a paleta de cores impressas foi diminuída;

  • o baralho restaurado por Kris Hadar, que apesar de apresentar uma colorização suave e agradável aos olhos, fez adições inexplicáveis a algumas cartas.



Restando os baralhos de Jean Noblet e de Jean Dodal (os mais antigos Tarôs de Marselha) restaurados por Jean Claude Flornoy e o Tarô restaurado por Alejandro Jodorowsky e Philippe Camoin. Entre estas opções o mais atraente em termos de apelo iniciático e de traçado (mais limpo e suave, seguindo o modelo de Nicolas Conver) é o restaurado pela dupla, que na palavra dos mesmos: "é um trabalho onde a Verdade Tradicional foi restaurada."

Porém, as datas do baralhos de Jean Noblet (que antecede em mais de um século o baralho de Conver) e de Jean Dodal são convidativos para se adentrar no contexto cultural dos imagineiros, como diz Flornoy.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Louco e Miseráveis

Uma das Canções dos Goliardos, jovens artistas, irreverentes, meio monges, mambembes e sem dinheiro, diz assim:

"Se o sábio
tem o costume
de construir sua morada
sobre a rocha
então sou um louco
pois sou como a corrente que avança
e cujo curso
jamais se detém
sigo adiante
como um barco sem piloto
como um pássaro vagando
pelos ares
nada me detém
nem chave nem grilhões
procurando meus semelhantes
junto-me aos miseráveis."


O grifo é meu.
É fácil verificar a quem, no Tarô, estes versos referem-se. Entre os medievais as figuras do Tarô eram recorrentes. E relembro da carta do Tarocchi di Mantegna, onde o Louco é nomeado de Misero. Le Fou, Fool, Le Mat, Misero... Nomes diferentes, mas com a mesma iconografia. E ouso dizer, com uma origem histórica e cultural bem definida.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Rabo de Estrela

Não, não... este não é um post sobre partes avantajadas de celebridades.

Na hora do lanche das crianças, das turmas da manhã, uma menina muito simpática e que gosta muito de mim, veio me mostrar toda feliz um livrinho que ela havia retirado na Biblioteca: Estrela-de-Rabo. Finjo interesse, finjo surpresa - quantas vezes as crianças vem nos mostrar a mesma coisa?

Porém, no meu fingimento vou folheando e vejo que há algumas figuras em preto-e-branco e uma delas é a carta o Enforcado, do Tarô Mítico


O trabalho artístico da carta é horrível, mas me interesso mesmo é pelo livro.

Que surpresa!!!

Quantas vezes gestos banais e repetitivos podem nos surpreender? Ou eles sempre têm algo a nos surpreender, mas o nosso filtro barra?

Estrela-de Rabo, da Nilma Lacerda, editado pela Frente Editora, é um livro de contos que possuem em comum o mistério e a magia, ambientados em locais familiares aos brasileiros.

É no conto "Que história mais doida, essa!" que o Tarô aparece, de forma discreta nas mãos de uma cigana numa favela. Para se ter uma idéia do enredo a carta que aparece para o protagonista é o Enforcado.

É uma ótima leitura rápida e divertida. Recomendo!

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Botticelli & Pamela Colman Smith

Quais paralelos há entre o 3 de copas e a Primavera de Botticelli?

Três de copas Waite-Smith

Detalhe da primavera de Botticelli:
as Três Graças
 


No quadro de Botticelli percebe-se a temática mitológica grega, Cupido, Vênus e Mercúrio (na extrema esquerda). As três jovens dançando, à esquerda na pintura, são as Três Graças (Aglaia, Tália, Eufrosina), símbolos da sensualidade e da beleza, que sempre acompanham Vênus. Representam a alegria, o encanto e a beleza, em sua celebração.

Mais sobre as graças, aqui.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Tarô da Heron

O Louco no Tarot de Nicolas Conver (1760)
Depois de muito namoro e pesquisa comprei o Tarô foto-reproduzido de Nicolas Conver elaborado pela Herón (1760). Exatamente como está na Bibliotèque Nationale de France (BNF)Fiz a compra por um site britânico, que pelos meus cálculos, de conversão da Libra esterlina e pela dedução do imposto VAT (só é cobrado aos europeus), valeu bastante a pena. 

O Louco no Tarot de Marseille restaurado por Jodorowsky e Camoin


Não tenho certeza, mas pelo que vi é a base das gravuras utilizadas por Jodorowsky e Camoin para a reconstrução de seu Tarô. 



Esses baralhos foto-reproduzidos possuem um charme bacana, pois suas cores possuem um tom naturalmente desgastado. Parecendo que já foram utilizados inúmeras vezes. A sorte, o amor, a fortuna de milhares já passaram por suas desgastadas lâminas....

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Waite & Viéville

O Sol no Tarô Rider-Waite-Smith
tarot Viéville, arcane XIX
Navegando pela internet verifiquei que a carta O Sol de A. E. Waite possui um paralelo com a gravura feita, supostamente, por Jacques Viéville para seu Tarô tipo de Marselha. Pesquisando mais pude perceber que os estudiosos deste Tarô consideram-no meio misterioso, por diversas particularidades que só estão presentes nesse baralho.

Porque será que Waite bebeu nesse baralho?

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Documentário sobre o Tarô: Tarology!


Enquanto estava fazendo o dever de casa pesquisando sobre a forma de interpretação de Enrique Enriquez (seguindo a sugestão dada por Rasa) e tentando fugir do resultado negativo encontrado em http://enriqueenriquez.net/index.html (com propagandas de domínios de internet). Achei este interessante projeto: http://www.indiegogo.com/Enrique-Enriquez-Project.



Me empolguei mesmo! Estão em fase de arrecadação, através de Financiamento Coletivo (crowdfunding). Dê uma conferida nos trailers e se calhar, contribua! Se der certo, vou ganhar uma carta de Tarô autografada.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Riqueza original do Tarô?


Desde que li esse trecho de um texto do Constantino K. Riemma, no Clube do Tarô, tenho repensado o uso que tenho feito do baralho de Waite, veja:


O Dez de Espadas do baralho Rider-Waite ajuda a exemplificar essa freqüente contradição entre o que é propalado como fundamento e o resultado concreto.

Nessa carta fica clara a enorme distância simbólica entre o aniquilamento de um homem, abatido pelas costas com uma dezena de espadas, e os múltiplos atributos e significados do elemento ar (naipe de espadas) e do número dez (o retorno do conjunto à unidade). Diante de um fato como este, faz sentido a crítica de que, com essa figuração, Waite "não só liquidou com o personagem, mas também enterrou a riqueza de significados esotéricos do Dez de Espadas".



Soa, para mim, que o baralho de Rider-Waite-Smith diminuiu a riqueza original... O que fazer? Desistir de tudo? E se desistir, onde está a riqueza original?

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Guillaume Postel, os quatro elementos e o Tarô - um erro.


Quando chegou à minha mão o livro Tarô, Ocultismo & Modernidade do Nei Naiff, debulhei a leitura para ver se encontrava o que estava me intrigando desde esse post. Ou seja, à procura de maiores detalhes sobre a relação dos quatro elementos com os quatro naipes do Tarô que Postel foi, supostamente, o primeiro a definir.  E mais importante ainda: seria uma relação estudada trezentos anos antes de todos os outros ocultistas que - em grande parte e na minha opinião - mais confundiram do que explicaram o Tarô! Infelizmente Naiff não dá maiores detalhes de como esta proposta foi realizada por Postel, tampouco diz em qual edição de Clavis Absconditorum ele consultou. Sua tese é que somente Eliphas Levi irá reabilitar e dar o devido crédito à Postel, isso quase no fim do século XIX.

Porém em todas as fontes que pesquisei, não encontrei nada que diga que Postel sequer conhecia o Tarô. Na minha opinião é um pequeno erro de apreciação que Naiff cometeu e não tira a credibilidade muito menos a relevância de seu trabalho, que é justamente a de desmitificar o universo do Tarô e de esclarecer sua história.

No "Prefácio Biográfico" assinado por Arthur Edward Waite em 1896 para o livro de Lévi: Dogma e Ritual de Alta Magia (que não consta no livro da edição brasileira da Editora Pensamento). O inglês comenta ironicamente que Lévi gostava de percorrer as obras e não de aprofundar-se nelas e continua:
"Um dos trabalhos mais citados por Lévi e com maior reverência é o trabalho de Postel, porém Lévi nunca se deu ao trabalho de verificar que a chave que lhe era tão cara era na verdade um adendo de uma edição posterior". - (Tradução minha de uma edição em inglês).
O editor em questão foi Abraham von Frankenberg, que adicionou esta chave (abaixo) em 1646, como uma interpretação pessoal do que Postel escreveu em 1546. Porém, que fique claro, nem Postel nem Frankenberg deteram-se sobre o Tarô. Essa suposta ligação é feita por uma interpretação errônea de Eliphas Lévi. 

Chave de Frankenberg, que Lévi considerou como sendo de Postel. Que posteriormente foi reinterpretada pelos ocultistas do século XIX como Papus, Zain e Waite.
Assim Levi interpreta a tal chave:
"Os verdadeiros iniciados, dizemos nós, que conservam o segredo do tarô entre os seus maiores mistérios, se guardaram de protestar contra os erros de Etteilla, e não o deixaram revelar, mas velar de novo o arcano das verdadeiras clavículas de Salomão. Por isso, não é sem profunda admiração que achamos intacta e ignorada ainda esta chave de todos os dogmas e filosofias do mundo antigo. Digo uma chave, e é realmente uma, tendo o círculo das quatro décadas para anel, a para haste ou corpo a escada dos 22 caracteres, depois para dentes os três graus do ternário, como o entendeu e figurou Guilherme Postel, na sua Chave das Coisas Ocultas desde o Começo do Mundo, chave da qual indica o nome oculto e é conhecida unicamente pelos iniciados [à esquerda]
palavra que se pode ler Rota, e que significa a roda de Ezequiel, ou Tarô, e então é sinônimo do Azoth dos filósofos herméticos. É uma palavra que exprime cabalisticamente o absoluto dogmático e natural; é formado dos caracteres do monograma de Cristo, de acordo com os gregos e hebreu".


De acordo com Michael Hurst, aqui: "Eliphas Levi elaborou uma ficção no século XIX, sobre uma ilustração do século XVII, para um livro [de Postel] do século XVI." E muitos ocultistas querem justificar tudo isso no século XXI. 

Nesta página aqui, há um artigo que comenta sobre essa confusão e as possíveis inspirações que Frankenberg teve para a dita chave.

Quanto as considerações de Naiff, acredito que ele tenha se baseado em Papus. Este em O Tarô dos Boêmios, ao desenvolver as relações entre as figuras dos Arcanos Menores, seus naipes e ao Tetragrama sagrado, relembra Postel e Levi:
"Todos os autores que estudaram o aspecto filosófico do Tarô reconhecem unanimemente a correspondência entre o tetragrama e os quatro naipes. Guilherme Postel, e sobre tudo Eliphas Levi, desenvolveram estes estudos com proveito mostrando-nos como as quatro letras do tetragrama são aplicadas ao simbolismo de todos os cultos". - (Tradução minha de uma edição em espanhol).
Pelo teor das conclusões de Papus, me parece que Naiff  tenha retirado destas páginas o que ele considerou ser de Postel.

Quem quiser e tiver culhão sagacidade para isso, pode verificar o original Clavis Absconditorum a Constitutione Mundi (Chave para coisas ocultas desde a fundação do mundo), em latim, na Biblioteca Nacional da França. Se não funcionar tem este outro link.

O que me intriga é que Arthur Edward Waite mesmo sabendo desta confusão perpetuou a falha quando comissionou com Pamela Smith a realização de seu Tarô. A dupla referendou tal ligação com o Arcano Maior de número dez, A Roda da Fortuna. Por que Waite? Porquê?

De acordo com Papus esta é: A Chave 
Absoluta para a Ciência Oculta.
Quase toda a viagem de Lévi está aqui: as
criaturas de Ezequiel, ROTA,
Tetragrama e os símbolos
alquímicos.





















Isso tudo toma dimensões insanas surrealistas quando se vê gente publicando essas chaves (Frankenberg, Zain, Papus e Waite, misturando com suástica, tibetanos e templários) e interpretando-as para dizer que encontrou um código para o dia do juízo final. Não vou dar o endereço do rapaz aqui, porque ele não merece, merece o hospício ou algum medicamento... Mas é interessante verificar como pega, essas conversas de conspirações, segredos, "estão ocultando isso de você" etc.

Concluindo...

Através das fontes pesquisadas é possível concluir que Postel não é o primeiro ocultista a estudar o Tarô e por isto nenhum outro ocultista trouxe à tona sua obra relativa às cartas, a não ser através de Eliphas Levi que apressadamente construiu essa relação. Será Papus em O Tarô dos Boêmios que irá fazer a relação direta entre as letras do nome de Deus, os quatro elementos e os naipes do Tarô.

Por enquanto, não há evidências de que o Tarô tenha sido tratado por algum hermetista, cabalista, astrólogo ou filósofo anterior aos apontamentos de Court de Gebelin e do conde de Mellet.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Em Busca do Baralho Perfeito II... (nas catedrais)

O tímpano do portal central da faixada oeste da Catedral Notre-Dame de Chartres.
É possível ver 'A Justiça', 'O Diabo', 'O Julgamento' e 'O Mundo'.
(fonte: Mary Ann Sullivan)
Nesta semana li "A Simbólica dos Arcanos" de Jean Claude Flornoy, traduzido por Constantino Riemma, aqui.

Texto interessante a quem procura as bases tangíveis do Tarô. A primeira parte do texto, localiza com precisão a origem das alegorias presentes nas cartas do Tarô ou a cultura onde essas culturas nasceram: no contexto dos construtores de catedrais na Europa Medieval e Cristã.

São dados e fontes históricos sobre a origem das cartas e sobre o contexto cultural em que surgiram, sem achismos, sem fórmulas arrogantes e sem conspirações.

Considero isso importante e até indispensável, pois se sabemos a origem ou pelo menos o contexto cultural, religioso, político e espiritual em que estas cartas foram concebidas, estaremos mais perto da intensão que movia os criadores dessas imagens. E somente assim, podemos trabalhar em como estas imagens agem em nós atualmente.

Que fique claro, não se está falando sobre a origem do Tarô.

Motivado por esta leitura abro novamente a procura pelo baralho perfeito. Continuarei utilizando o Rider-Waite enquanto não tenho uma resposta mais definida. Levo a crer que o baralho perfeito esteja ou entre os que foram comissionados pelas famílias nobres italianas ou entre os baralhos conhecidos como de Marselha.


segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Organizações e Agrupamentos das Cartas de Tarô

Sobre este assunto já havia comentado no post sobre a resenha do livro Curso Completo de Tarô.

Estas propostas de organização e agrupamentos de cartas servem para aprofundar um conhecimento mais íntimo das cartas através das relações com outras e das diferenças que guardam entre cada série.

"... eu gosto é de complicar... "
Oswald Wirth
Como Naiff, não comenta de onde ele se baseou, fui lendo uma coisa aqui outra ali e verifiquei que ele partiu das observações de Oswald Wirth. O brasileiro moderniza a teoria e as relações entre as cartas, mas o grosso é o mesmo.

Proposta de agrupamento de Naiff.

No seu livro O Tarô e o Autoconhecimento, também já resenhado aqui, Geringer apresenta a mesma sequência lógica de Wirth, mas sem mencioná-lo nenhuma vez. E só sei que ela baseou-se copiou de Wirth graças à tradução que Constantino Riemma oferece do livro Le Tarot des Imagiers du Moyen Age, no Clube do Tarô. 








Neste ponto Pedro Camargo (livro resenhado aqui) é mais honesto que Geringer, pois seu texto traz diversas referências e citações de Wirth (acredito que traduzidas por ele).

O que difere deste agrupamento de Wirth, usado por Camargo e Geringer, do proposto por Naiff é a ordem da segunda fileira, dos arcanos XII ao Louco. Em Wirth esta segunda fileira lê-se da direita para a esquerda, para seguir a forma do círculo; enquanto que em Naiff onde não há a questão de dispor as cartas em um círculo (TARO - ROTA - ORAT etc.) segue a ordem da esquerda para a direita, mas são os mesmos arcanos: do Pendurado ao Louco. 

Proposta de agrupamento de Wirth.

Na minha interpretação Naiff moderniza a proposta, deixa-a mais clara, qualquer pessoa consegue ler e fazer comparações com sua própria vida com suas experiências. Wirth está inserido naquela tradição dos ocultistas do século XIX começo do século XX, onde era imperioso encher as frases de floreios e referências a templos, sábios, livros conhecidos somente indiretamente.



segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Iniciação ao Tarô - Pedro Camargo


Quero apresentar um pequeno, mas muito bom livro. Escrito de forma clara e concisa. Sem querer defender o autor ou sua obra, quero mostrar o que me chamou a atenção e que acredito que deva ser mencionado. Com a evolução da leitura gosto de verificar onde o autor baseia suas idéias e quem sabe tirar algo de proveitoso. Na bibliografia há uma série de livros sobre Tarô que ainda não tinha ouvido falar:  Piotr Ouspensky;  Mouni Sadhu e Oswald Wirth.

De todos eles, e pelos comentários do Pedro, me chamou a atenção o  trabalho de Mouni Sadhu. Fiz uma pequena pesquisa e no próximo post falo um pouco mais sobre ele.

Destaco seus comentários sobre a adivinhação. Seguindo o mote de que: " A tendência da vida é dar certo", Camargo desenvolve sua visão sobre destino e a natureza das consultas às cartas (aliás esse mote me lembra essa música do Raul Seixas). De acordo com o autor, se a tendência da vida é dar certo, então saberemos que em um aparente fracasso estamos dando o primeiro passo para o sucesso. Assim, a consulta do Tarô será para, defronte do infortúnio, encontrarmos o melhor caminho a ser trilhado. Esta visão retoma um conceito importante de Nei Naiff ao comentar o caminho que o Enamorado inaugura: "A liberdade tem o seu preço - o livre arbítrio; e o livre-arbítrio tem o seu peso: a escolha do caminho correto". Isso é algo bem parecido como que os Kabalistas do século XXI têm se detido, ou seja, para eles o Criador, ou a Luz - como chamam Deus -, nos oferece situações-problema que são oportunidades para que descubramos uma forma melhor de lidar com nossas incapacidades e incompreensões e assim desenvolvermos nossas potencialidades.

As cartas do Tarô mostram tendências que estão ocorrendo em nossa vida e aquilo que pode ser uma boa saída, desta forma, cabe a nós tomarmos as medidas necessárias, ou não.

Camargo, lembra então do filósofo iluminista Voltaire, que este não acreditava em preces onde o homem pede a intervenção divina, ilustra essa idéia com a seguinte citação retirada da novela Zadig, ou O Destino: "Dirigimos súplicas a um homem quando julgamos que ele possa mudar de opinião. Quanto a Deus , cumpramos nosso dever para com ele. Sejamos justos. Esta é a única opção verdadeira."

Alertando às complexidades desnecessárias que muitos comentadores do Tarô fazem, Camargo afirma, que o Tarô é uma experiência pessoal e que faz parte do saber que só podemos ter acesso através da experiência, da meditação e da "profunda honestidade para conos co e com a vida".

E para terminar Camargo defende o uso do Tarô de Marselha, aqui estão alguns de seus argumentos:
"A maioria [dos baralhos em uso na atualidade] apresentam características demasiado presas à visão pessoal de seus autores, o que pode comprometer a síntese dos baralhos tradicionais, cuja simplicidade atende melhor à função do símbolo na linguagem associativa: sugerir, ser abrangente e não restritivo, promover a prática da analogia. Em outras palavras, favorecer o exercício do autoconhecimento." (pg. 35)
"... [o] Tarô de Marselha, cuja simplicidade dos desenhos, cores primárias e fundo branco cumprem necessariamente sua função de veículo de contato com o inconsciente." (pg. 40)
"... aparentemente "pobre", o Tarô de Marselha nos surpreende a cada momento pois seu poder de síntese e sutileza de seus elementos, cumprindo necessariamente a função do símbolo, que é sugerir, proporcionando associações que se processam em nível energético, inconsciente, e permitindo assim que cada indivíduo realize a sua própria viagem." (pg. 41)

sábado, 16 de outubro de 2010

El Colgado - Sheldon Kopp


Como percebi certo interesse dos leitores pelo livro mencionado no post anterior resolvi pesquisar um pouco mais sobre ele.

Começo falando da capa, que considero muito boa. Retrata ou lembra diversos dos Arcanos Maiores do Tarô de Marselha, apesar de no interior Kopp utilizar o Tarô de Waite-Smith. 

A apresentação do livro, resumidamente, diz isto: 

"Como assumir o demoníaco que existe em nós?

A herança que o guru contemporâneo tem recebido inclui as metáforas curativas  do mestre zen, do rabino chassídico, do eremita cristão do século IV, dos bruxos, dos "Homens de Medicina" e os magos. Tal afirmação nos previne sobre as características deste livro singular, que é como um jogo feito de contos hindus, alegorias, relatos chassídicos, modernas sessões de psicoterapia...

O autor recupera os mitos e os arquétipos de Jung, para que aceitamos viver com mais inteligência em nosso próprio claro-escuro: o lado da luz e da sombra, antecipado no duplo sentido das cartas do Tarô.

Este livro é uma caixa de pandora, de deliciosa leitura: ensina enquanto diverte, nos coloca frente a nós mesmos e nos diz: lê a ti mesmo."

Aqui um pequeno comentário traduzido e com certas adaptações, do psicoterapeuta argentino Arthuro Philip:

"El Colgado” que tem como subtítulo “La psiquiatría y las fuerzas de la oscuridad”, que possuo exemplar da editorial Alfa Argentina editado em novembro do ano 1976 (velhinho porém atual). Esse livro é destinado a profissionais da saúde mental, mas isso não impede sua compreensão pois está escrito com uma linguagem acessível (...).
É um excelente livro escrito por um colega psicoterapeuta enquanto lutava contra um câncer de cérebro, em corajosa empreitada para transmitir seus conhecimentos antes de morrer. Escreve sobre vários arquétipos humanos próximos a nós que C. G. Jung trata, um deles é o do Trickster, ou do Bobo."

Volta e meia aparecem exemplares surradinhos no MercadoLivre argentino e uruguaio... Mas é muito ruim fazer esse tipo de compra, pois o ML brasileiro não é integrado ao dos outros países da América Latina.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Manual do Tarô - Hajo Banzhaf

Como já havia ficado impressionado com o didatismo de Hajo Banzhaf, aqui. Resolvi me aventurar neste Manual do Tarô.

Este livro do Banzhaf (também da Editora Pensamento) foi lançado antes do Livro do Tarô (onde o alemão irá aprofundar sua abordagem didática abrangendo todos os passos na realização de uma leitura). No Manual do Tarô, Hajo faz uma análise de cada uma das cartas tanto do Tarô de Waite quanto do Tarô de Marselha.

Para cada um dos Arcanos Menores ele traz relações e associações, entre outros, com uma letra do alfabeto hebraico; com a Numerologia; uma citação de Jung; uma citação literária; um comentário seu sobre a interpretação da carta, na Síntese; e uma história, que geralmente é um complemento da citação literária (com Rudyard Kipling, Alan Watts, Albert Camus, Herman Hesse, Sheldon Kopp, Oskar Adler, Robert Pirsig, José Ortega y Gasset, John Fowles. Isso é ótimo, pois acredito que o entendimento sobre o que cada carta representa alcançamos através de duas maneiras: ou pelas nossas experiências ou, se não há temos, pelos livros que vivemos.

Nestes exemplos de citações literárias alguns foram bem fáceis de achar, como Kipling, Pirsig e Hesse. Porém outros foram muito difíceis, isso deve-se ao trabalho do tradutor que não se dignou a procurar o nome dos livros como foram publicados no Brasil. A obra citada por Hajo de Albert Camus foi lançada no Brasil como Bodas em Tipasa, quem procurar como "O Casamento da Luz", como foi traduzido, não achará nada. Do psicoterapeuta Sheldon Kopp realmente não tem nada publicado em português, mas o nome do livro citado poderia ter sido traduzido como O Pendurado. Este livro foi publicado na Argentina pela Editorial Alfa Argentina, em 1976, com uma capa linda - sim, continuo julgando um livro pela capa... A obra de Oskar Adler ganhou no Brasil o título de Psicologia Astrológica, na Argentina: La Astrología como Ciencia Oculta. Já a de Ortega y Gasset recebeu, no Brasil, o título de O Homem e a Gente.


Voltando ao Manual. Quanto aos Arcanos Menores ele propõe uma aproximação interessante. Que realmente me ajudou na compreensão destas cartas, tanto no que elas representam dentro da série de números, por exemplo: 1 é o impulso, 2 é a polaridade, 3 é a estabilidade, 4 é a estabilidade rígida, 5 - é o medo, 6 - crise, 7 - harmonia, 8 - depressão, 9 e 10 - positivo para moedas, excessivo para espadas e bastões. Quanto na associação dos naipes aos  quatro elementos, em uma " Correlação interna das séries", Banzhaf cria textos seguindo a ordem de Ás até Dez e vice-versa, cada série seguirá o mote do elemento que a rege e da primeira carta. Por exemplo, se a série for de Bastões (fogo) começando por Ás até Dez, o mote será: "O caminho da vontade, do crescimento e da fama". Já se for do Dez de Bastões até o Ás será: "O caminho do jugo do dever para o livre desenvolvimento". 

Os quatro elementos de acordo com o alquimista  Isidorus Hispalensis.
A associação de elementos e naipes é a mesma usada por Nei Naiff, porém Banzhaf não diz em momento algum qual a origem desta associação, ele embasa essa associação com autores modernos como o astrólogo Stephen Arroyo e com o homeopata e analista junguiano Edward Whitmont.

Até chegar a isto ele repete ecos de Papus, Lévi e Waite ao fazer diversas associações mitológicas, hebraicas, zodiacais... que me fatigam. Algo que ele não fará em O Livro do Tarô.

Com este livro Banzhaf reforça o uso e a escolha que fiz pelo baralho de Waite, pois apesar de ele analisar o Tarô marselhês toda sua interpretação segue as figuras de Waite e Smith.


segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O Tempo e os Oráculos

No post sobre a resenha do livro de Hajo Banzhaf comentei sobre as reflexões filosóficas que ele faz em relação ao tempo e aos sistemas de adivinhação. Trago algumas citações e meus comentários.


"Do ponto de vista espiritual, o tempo não é apenas uma quantidade, um período de tempo que transcorre a esmo. O tempo é uma qualidade que atribui a cada momento seu próprio significado. Esta é a concepção que norteia a maioria dos oráculos. Enquanto os ponteiros do relógio mostram apenas uma quantidade de horas, a posição dos astros no céu é uma manifestação do acaso que pode significar alguma coisa ( uma "qualidade") em determinado momento. De um ponto de vista mais abrangente, pergunta e resposta constituem uma unidade, pois o momento da pergunta também inclui a resposta. assim, uma pessoa capaz de entender a qualidade do instante consegue ler a resposta com base em certos símbolos. Esta é a essência do acaso: numa constelação causal, é possível identificar a qualidade do instante. O objetivo de muitos oráculos, cada um à sua maneira, é possibilitar a interpretação destes símbolos." [pg. 12]


Mas se o Tarô é preciso dentro de uma perspectiva acausal, então se eu deitar as cartas cinco vezes necessariamente deveria receber a mesma resposta cinco vezes, não? A resposta é obviamente não. Olha o argumento de Hajo: "provar alguma coisa pelo método de repetir um experimento várias vezes, a fim de obter o mesmo resultado é típico da mentalidade racionalista. Para garantir o sucesso desse método, cria-se um ambiente de laboratório que exclui todas as interferências do acaso, até onde for possível. Portanto, o acaso é visto como um obstáculo que precisa ser removido. Por outro lado, no mundo irracional dos oráculos o acaso é uma fonte valiosa de informações. A disposição de cartas no Tarô produz uma constelação única e casual, que reflete a qualidade especial daquele momento. O fato de que esta constelação não se repete sempre é totalmente natural, e não significa nada. Um paralelo fácil de entender é o mundo dos sonhos, pois um sonho pode significar muitas coisas sem que a pessoa tenha de sonhá-lo cinco vezes seguidas. Da mesma forma, quando se procura um conselho ou uma resposta no Tarô, só a primeira consulta é decisiva." [pg. 12] É o mesmo tipo de objeção pelo qual tenta-se provar a inexistência de Deus.
O método científico é ótimo para entender e explicar fenômenos quantificáveis, que mesmo que estes não consigam ser repetidos em um ambiente seguro, pelo menos encaixam-se em hipóteses e modelos explicativos lógicos.

E por mais que a psicologia evolutiva tente explicar e dar um caráter utilitário a paixão, ao amor e à amizade, ela só está explicando parte destas manifestações, pois jamais conseguirá compreender-lhes as sutilezas e as qualidades inerentes a estes fenômenos.

A reflexão de Banzhaf continua assim: "É possível confiar cegamente nas cartas? Elas nunca mentem? Naturalmente, como em todas as situações da vida, o Tarô nos dá acesso a uma verdade objetiva, absoluta e infalível. Mas nem por isso a resposta das cartas é aleatória ou sem sentido. A credibilidade das cartas do Tarô só pode ser comparada aos conselhos de uma pessoa velha e sábia. São conselhos valiosos, que devemos levar a sério e ouvir de coração aberto. Mas vender a alma por eles, tornar-se dependente, sujeitar-se cegamente ou abrir mão das próprias responsabilidades seria com certeza uma atitude errada."[pg. 12-13]

E para concluir: "Quando a resposta do tarô não é um conselho, mas uma previsão sombria, é preciso considerar que as cartas mostram uma tendência que deve se realizar com toda a probabilidade, caso você continue agindo da mesma maneira ou continue seguindo o caminho mencionado em sua pergunta. Essa tendência não é inevitável, pois as cartas podem mostrar alternativas melhores, ou mais promissoras." [pg. 19]

"[...] Fases difíceis da vida são às vezes inevitáveis, e certas experiências podem causar decepção, tristeza ou desgosto. O tarô também pode ser útil nesses momentos, ajudando-nos a entender os motivos de uma determinada experiência, a lição que ela nos ensina e a melhor maneira de lidar com ela." [pg. 19]